Não vou falar pelo povo da América Latina inteiro, porque seria injusto, mas de Brasil nós entendemos e vivemos diariamente. Mas sim, algo fizemos de muito mal. O que vou escrever é o meu pensamento mas também o espelho de outras centenas de textos escritos sobre este tema. De tão abordado, ja é considerado chato e tudo que fica chato ou inconveniente, no Brasil, é abafado ou vira pizza.
Certo, temos a maior biodiversidade do planeta, um dos mais ricos litorais da terra, um sistema de saúde que é copiado por outros países (copiado o sistema no papel e não nas ações), temos até internet e telefone celular, quanta tecnologia. Enfim, a biodiversidade já está quase toda licenciada para estrangeiros (Japão, EUA, França e Reino Unido), portanto, temos que pagar mais caro por nossa própria matéria prima. Somos campeões no acesso às redes sociais na internet, ou seja, o ócio predomina nesta nação. Provavelmente também somos campeões em volume de informação inútil gerada.
...eu tenho a impressão que fomos culturalmente treinados para esperar ganhar dos que são mais ricos e quando não recebemos reclamamos de injustiça. Não vamos à luta, o povo brasileiro não vai à luta, só pensa e fala que vai. E sim, culpamos quem teve atitude e se desenvolveu.
Nós, brasileiros, não toleramos o sucesso, crescemos aprendendo que dinheiro e riqueza são coisas do diabo, coisa suja. De fato, de tanto cultivarmos isso, naturalmente que há muito dinheiro sujo entre nós, ou melhor, bem longe de nós. E sabemos disso e a única coisa que se faz a respeito é piada.
Não importa se tivemos universidades antes dos EUA, o que realmente importa é a maneira como são utilizadas. E eles as utilizam em sua plenitude.
Revolução é outra coisa que aprendemos ser do mal. No Brasil tudo se consegue na lábia, na fala doce e mansa dos que se acham "espertos". Revolução pra quê? Se consigo aplicar o golpe do bilhete premiado, se consigo cobrar mais e oferecer menos. Receber o troco a mais e não devolver. O que importa mesmo é se dar bem na hora. Revolução = evolução + crescimento cultural e econômico.
O povo brasileiro gosta mesmo é de carnaval, balada forte, DJ importado e muito feriado. Realmente deixamos passar a revolução, mas nem sentimos muito, pois estamos absortos com um único pensamento fixo, aquele que aprendemos desde criança: "Tudo um dia vai melhorar". E o tempo passa...
Mas é realmente duro quando acordamos por alguns instantes e lembramos que desde o princípio, nosso continente serviu de celeiro e despensa para o velho mundo. Oferecemos riquezas que por lá não existiam. E apesar de todas as riquezas que nos foram tiradas, terminamos a história toda com um catálogo imenso de dívidas. Fornecemos ouro, diamante, biodiversidade e ainda devemos.
Poderíamos ter aprendido as lições com nossos próprios vizinhos, e mesmo assim não o fizemos, preferimos ficar fazendo piada da situação. É que assim dá mais Ibope e as tardes de domingo ficam mais acaloradas com a avalanche cultural que os programas de TV nos presenteiam.
Não aprendemos realmente nada. Nossos governantes são uma extensão infinita do império inicial, usurpando a pouca inteligência que este país conseguiu reunir e que perde a força cada vez que alguém se corrompe e deixa a causa, seja ela qual for.
Vivemos em um país onde exaltamos quem é honesto, como se fosse uma aberração, o que deveria ser corriqueiro vira matéria de jornais, revistas, TV. Vivemos no país do Severino, do João, da Maria, do Silva que se orgulham de dizer que são pobres e assim só alimentam ainda mais as esperanças dos novos corruptores. Aqueles que tomarão o poder porque entendem de fato a mentalidade do seu povo. O povo que os elege. O povo que se vende por um churrasco e um caminhão de barro.
No Brasil é realmente tudo como um livro aberto, esgoto, buracos, desigualdade, injustiça e principalmente o deboche àquele que se diz cidadão de bem. De bem? Se fôssemos realmente de bem, estaríamos no meio de uma revolução declarada, agressiva e definidora do futuro desta nação. Mas não somos de bem, somos de nada. Aceitamos esmolas, vale transporte e vale refeição. Aceitamos assistencialismo pra inglês ver, aceitamos programinhas sociais que são somente teasers da próxima campanha. Somos orgulhosos em dizer que temos Carteira Assinada pelo patrão. Documento anacrônico, que até hoje é um grilhão. Sim, temos patrão, adoramos ter patrão. Adoramos pagar o imposto do imposto sobre imposto. E vamos continuar pagando. No Brasil há uma profusão de classes sociais em função da economia, das comparações sobre igualdade, etc, mas analisando o perfil e as características desse povo, podemos constatar que temos duas classes: Miseráveis e fúteis, e transitam entre si. Ultimamente costumo lembrar de uma frase, muito bem destacada no documentário do diretor Marcelo Masagão. "Nós que aqui estamos, por vós esperamos" (frase escrita no portão de um cemitério no interior do Brasil, alusivo à Capela dos Ossos, em Évora, Portugal).